O Programa Bolsa
Família, criado no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), em 2003, surgiu com o propósito de erradicar a fome e
minimizar os efeitos da alta concentração de renda no País. Encarado
como carro-chefe do área social pela gestão petista, o projeto
beneficia, atualmente, cerca de 14 milhões de famílias, que saíram da
extrema pobreza e foram introduzidas ao consumo. Em seu rascunho
original, a medida também deveria servir de ponte para o acesso à
cidadania. No entanto, na avaliação do idealizador do programa Fome Zero
e fundador do PT, Frei Betto, o governo falhou ao não garantir a
promoção do bem-estar social, como previa.
Frei Beto esteve de
passagem pelo Recife na semana passada. Inicialmente, o programa Fome
Zero introduzia uma série de medidas governamentais como intuito de
transformar, gradativamente, a realidade social do País. Porém, o
projeto sofreu limitações a partir da implantação do Bolsa Família, que
prioriza a transferência de renda.
“A aplicação do programa
foi importante, pois garantiu a inclusão econômica de setores
significativos da população. Mas o governo não ampliou os espaços de
participação política e se curvou diante da força do mercado financeiro.
Não transformou as pessoas que saíram da miséria em cidadãs. Elas se
tornaram consumistas e agora não querem perder o que adquiriram, porque o
desejo humano é infinito”, avaliou Frei Betto.
Segundo ele, o Fome Zero
tinha o objetivo de favorecer uma consciência crítica, mas acabou sendo
instrumentalizado por interesses eleitorais.
“O Bolsa Família é
compensatório e gera um grande patrimônio eleitoreiro. Já o Fome Zero
era emancipatório e implicava uma série de reformas estruturais. Nele,
quem entrasse e ficasse dois ou três anos estaria livre da dependência
da União. No Bolsa Família, quem entra não tem porta de saída. É uma
pena que o governo tenha cedido à pressão dos prefeitos, transferindo o
cadastro aos municípios e destruindo os comitês gestores que foram
criados em 2003”, afirmou.
De acordo com dados do
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), mais de 96%
das crianças e jovens de famílias beneficiárias do programa cumprem a
frequência escolar mínima exigida com contrapartida. Entretanto, par o
frade dominicano, o programa deveria ter ido além. Na sua opinião, a
mudança das estratégias adotadas n concepção do Fome Zero é o resultado
da inversão das bandeiras defendidas pelo próprio PT, que iniciou suas
atividade no final dos anos 70, a parti de uma plataforma socialista
“Com os 55 milhões de
voto que o Lula teve em 2002, ele poderia ter feito várias reformas,
como a Política e a Agrária. Com a caneta na mão, deveria ter ousado.
Mas faltou vontade. Hoje, a sociedade civil está alijada do process
democrático, porque não foram criados mecanismo para isto. O PT deixou
de se o partido dos pobres e da ética. Errou no momento em que deveria
assegurar a legitimidade dos movimentos sociais e se rendeu. Ficou refém
do mercado financeiro e do Congresso e, agora, sofre as consequências
por não ter criado um projeto ético para o País”, finalizou.

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